16.4.16


“Só paro quando morrer”
Olheiro mais famoso de Mato Grosso dedica a vida a revelar talentos para o futebol regional

Só vou parar quando morrer”. Apesar de acumular mais cinco décadas exercendo a atividade de descobrir talentos para o mundo da bola, o desportista Jamil Rodrigues do Nascimento, hoje com 68 anos, reluta em se aposentar. Considerado um verdadeiro ‘garimpeiro’ de craques de Mato Grosso, Jamil como é conhecido por todos em Cuiabá, continua firme em seu propósito em descobrir e lapidar jovens jogadores, hoje exclusivamente para o Mixto Esporte Clube, o mais popular dos times profissionais de Mato Grosso.

“Há mais de 20 anos sou torcedor fanático do Mixto. Torço pelo clube que trabalho. Mas já fui Dom Bosco, quando trabalhei lá por 20 anos, e o saudoso Atlético Mato-grossense, primeiro time profissional onde comecei a trabalhar”, conta Jamil, traído pela memória quando perguntando os períodos em esteve nos três clubes. “Não me lembro”, complementa.

Mesmo com a idade avançada e tendo as inúmeras escolinhas de iniciação esportiva espalhadas Cuiabá afora como concorrentes, Jamil Rodrigues demonstra a mesma garra e comprometimento de 50 anos atrás quando iniciou no extinto Atlético Mato-grossense. Sem ter ninguém como espelho para adentrar no mundo da bola, o descobridor de talentos ressalta nos dias atuais está mais fácil para trabalhar, mas ‘muito difícil’ de se encontrar um craque.

“Antigamente, lá atrás, era difícil trabalhar em função da dificuldade financeira dos clubes, não tinha campo adequado, não tinha estrutura, mas você encontrava verdadeiros craques. Hoje não, está tudo fácil, campos gramados, estruturados, mas é muito difícil achar um garoto que possa ser um craque. E o que mais complica é o fato dos meninos de hoje não ligarem muito para a bola, querem saber de internet, celular, carros, músicas”, lamenta.

Funcionário do Alvinegro da Vargas há mais de 20 anos, Jamil Rodrigues ressalta que o que o fez se dedicar exclusivamente à função foi sua formação religiosa e educacional, forjada na escola salesiana do São Gonçalo, uma das mais antigas de Cuiabá.

“Eu nasci para ajudar as pessoas, não importa o que vou ganhar. Isso vem desde os tempos de quando estudei no São Gonçalo. Lá, aprendi e cresci ouvindo que devemos ajudar o próximo e isso que faço até hoje, só vou parar quando morrer. Aí sim, vou me aposentar, pendurar as chuteiras”, disse o olheiro, que em outros tempos se ateve apenas à função de organizar os uniformes dos jogadores mixtenses, dombosquinos e atleticanos, como ‘mordomo’. Nunca quis se treinador de time profissional, mesmo com as oportunidades que surgiram. Gosta mesmo de ser roupeiro e dos melhores.

Por conta desse sacerdócio, por meio do olhar criterioso de Jamil Rodrigues, o futebol de Mato Grosso viu nascer para o mundo da bola ex-jogadores como Vítor, Beto Cuiabano e o goleiro Régis. Todos eles passaram pelo crivo de Rodrigues quando o mesmo prestava seus serviços ao Dom Bosco. Os dois primeiros jogaram no Flamengo. Já o terceiro defendeu por muito tempo o gol do Vasco da Gama, na década de 80. Em Cuiabá era chamado de ‘Marolinha’.

Já em solo mato-grossense uma centena de ex-jogadores e atuais atletas também passaram pelas mãos de Jamil. Ele cita com orgulho o ex-goleiro Gonçalo, o meia-atacante Iúca, ex-zagueiro Jandílson, ex-lateral direito Ezequiel e tantos outros. Hoje, todos são gratos por terem sido descobertos por um
profissional que, mesmo sem uma qualificação técnica de uma faculdade, sabe como poucos selecionar um garoto para o mundo futebolístico.

Perguntando sobre a quantidade de garotos com que já trabalhou em mais de 50 anos na atividade, Jamil perde a conta: “Em todo esse tempo, acho que trabalhei com uns 100 jogadores”. Questionado novamente, Jamil volta atrás, admitindo ter preparado mais de mil garotos que sonharam e ainda sonham em jogar futebol.

Solteiro e oriundo de uma família de 11 irmãos, o olheiro alvinegro prefere tratar os garotos como filhos, descartando ter privilégio por um dos tantos que ensinou a jogar bola. “Gosto de todos os garotos que passaram pela minha vida. Trato eles com igualdade, a minha missão é ajudar, contribuir para a formação de homens de bem, de família. Seja jogador ou um empresário, gosto do que faço”, complementa a missão.

Jamil Rodrigues é apontado por centenas de pessoas, em especial desportistas, como o principal responsável para que o trabalho nas divisões de base do Mixto esteja vivo até hoje. A rotina dele é puxada: acorda cedo e prepara todo o material para os treinos dos times sub-15, sub-17, sub-18, sub-19 e sub-20. Segundo ele, mesmo o Alvinegro da Vargas atravessando uma das piores crises
financeiras de sua história, o clube ainda vive de ajuda de abnegados.

“Graças a Deus o Mixto ainda tem pessoas abnegadas que me ajudam nas divisões de base. Contribuem com o que podem para que eu possa tocar o meu trabalho. Quando falta, eu tiro do meu bolso para complementar com algo. Faço isso com muito prazer, pra mim é recompensador”, frisa, destacando que muitos garotos têm dificuldade de se deslocar de até os locais de treinos, por
não terem condição sequer de pagar o transporte coletivo. “As vezes dou do meu salário para que o menino esteja no treino”, revela.

Em mais de 20 anos trabalhando num mesmo clube, Jamil é um verdadeiro colecionar de uniformes e camisas do Alvinegro da Vargas. Sem se apegar a números, ele afirma possuir em um armário em sua casa vários jogos de uniformes de épocas diferentes do Tigre.

Sem querer desfazer de sua arrumação, já que ainda é roupeiro do clube, o descobridor de talentos pega algumas para mostrar para a reportagem. De um monte de sete camisas, Jamil Rodrigues mostra a mais antiga usada pela última vez pelo ex-volante Fabinho, que já presidiu o clube e é um dos ídolos do Alvinegro até hoje.

“Essa camisa era do Fabinho. Tenho várias. Estão aí, bem arrumadas e com muito carinho. Sou mixtense, torço para o clube onde estou trabalhando”, reafirma Jamil, que ao quase ao término da entrevista, isso sugerido por ele mesmo, já que tinha que ir trabalhar, confessa ter ficado com medo do Mixto ser rebaixado para a Segunda Divisão este ano.

“Este ano fui em dois jogos do Mixto. Estava triste com a situação do time, pois corria risco de ser rebaixado. Ainda bem que conseguiu escapar”, finalizou Jamil bem ao seu estilo, quieto, observando tudo ao ser redor e avesso à entrevistas para a televisão, mas um patrimônio do futebol brasileiro.

Fonte: Luiz Esmael / Jornal A Gazeta, edição impressa de 12 de abril de 2016
17/04/2016

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