Tese de doutorado aponta que demolição do Verdão foi um erro

Wisley Tomaz/PNB Online

Estádio Governador José Fragelli Verdao
Foto: Site Copa no Pantanal

Uma pesquisa de tese de doutorado da Faculdade de Comunicação e Arte do Programa de Pós-Graduação do Grupo de Estudo e Pesquisa em Esporte, Cultura e Sociedade, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus Cuiabá, aponta que o Estádio Governador José Fragelli, mais conhecido como Verdão, foi demolido de forma impositiva e indiscriminada, para dar lugar a Arena Pantanal, sem que a sociedade mato-grossense, bem como pessoas ligadas ao esporte no Estado, pudessem sequer opinar ou debater.

Conforme o estudo, a conclusão é que os agentes ligados ao esporte que participaram da pesquisa não concordam com a demolição do Verdão, que tinha uma estrutura arquitetônica forte e uma relação social e cultural com os torcedores e clubes locais.

Em maio de 2010, com a cidade de Cuiabá já escolhida como  uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014, a demolição do Verdão foi iniciada, tendo terminada a maior parte em junho. A última parte do Estádio Governador José Fragelli a ser demolida foi a bilheteria de número 4, que dava acesso à arquibancada descoberta.

Com o tema: "Do Verdão à Arena Pantanal: Tramas Identitárias nas Ocorrências Culturais e Arquitetônicas do Futebol Mato-grossense", a doutora Fabiana Cristina de Lima pesquisou durante três anos os motivos que levaram à demolição do Verdão para que fosse construída a Arena Pantanal, bem como as consequências para a sociedade mato-grossense. De acordo com a pesquisadora, na ocasião não foi levado em consideração o patrimônio histórico e arquitetônico que o Verdão representava para o povo mato-grossense. Segundo ela, o projeto da Arena Pantanal, assim como das demais arenas construídas para receber a Copa do Mundo de 2014, tinham e ainda têm como objetivo atrair pessoas da classe média e média alta. Tanto, que a exclusão do espaço das gerais nas arquibancadas foi unânime em todas essas arenas.

A pesquisadora, que durante dois anos foi a campo ouvir pessoas ligadas ao esporte, além de fazer um trabalho minucioso de pesquisa junto aos arquivos disponíveis no estado e no país, disse que na época nem mesmo os atores do meio esportivo se manifestaram de maneira mais incisiva quanto foi anunciado que o Verdão seria demolido.

"O que houve foram algumas manifestações tímidas e isoladas, de um ou outro agente ligado ao esporte, ninguém de fato fez uma campanha ou um protesto para que o Verdão não fosse demolido", disse a pesquisadora. A impressão, segundo ela, é que as pessoas estavam "encantadas" com a realização da Copa do Mundo no Brasil e uma das fases em Mato Grosso, e pouco se importaram para o que representava a perda de um patrimônio histórico, cultural e arquitetônico que o Verdão representava.

O Verdão começou a ser construído em 1973 na administração do Governador José Fragelli (que deu nome ao estádio), e foi concluído em 1976, já com José Garcia Neto como governador de Mato Grosso. A inauguração foi no dia  8 de abril de 1976, em um jogo da Seleção de Cuiabá contra o Fluminense (RJ), com as obras parcialmente concluídas. Portanto, só em 1976, que o estádio foi entregue de fato em um quadrangular entre Mixto, Operário e Dom Bosco, com a participação do Flamengo, assistido por cerca de 50 mil torcedores. Em 34 anos de história, o Verdão recebeu cinco jogos da Seleção Brasileira de Futebol: Brasil x Suíça em 1981; Brasil x Equador em 1989; Brasil x Finlândia, em 1992 e Brasil x Islândia, em 2002.

Conforme a doutora Fabiana Cristina de Lima, que fez um resgate histórico da construção do Verdão até a sua demolição, a Arena Pantanal não representa a população Cuiabana e mato-grossense. Uma Arena, que sequer foi entregue de fato, já que é sabido que mesmo passados mais de cinco anos da sua inauguração, todas as obras no local ainda não estão concluídas. A ideia inicial é que o local seria tratado como uma arena multiuso, onde poderiam ser realizados eventos de diferentes naturezas. Todavia, recentemente, houve uma disputa entre os poderes, e a prefeitura de Cuiabá acabou perdendo. O governo de Mato Grosso argumentou na ocasião, que em função das modalidades esportivas que estavam sendo disputadas na Arena, que o local não poderia ser utilizado para as comemorações do aniversário de Cuiabá. Sendo que agora, o governo do Estado está utilizando para o que chama de "Natal Encantado".

De acordo com o professor doutor Francisco Xavier Freire Rodrigues, orientador da Fabiana de Lima em seu projeto de pesquisa, em termos acadêmicos o trabalho desenvolvido pela pesquisadora será importante para compor as estatísticas em um ramo que já tem sido muito estudado hoje na sociologia do esporte, que são os estádios e mais especificamente as novas arenas, as quais, segundo o professor-doutor, ficou constatado que mudaram significativamente o comportamento dos torcedores.

"O trabalho de pesquisa da Fabiana é mais amplo do que outros já realizados em outras arenas pelo Brasil. Isso porque ela fez uma pesquisa completa, tratando do Verdão a Arena Pantanal em todos os seus aspectos, ouvindo ex-dirigentes, dirigentes, ex-jogadores, historiadores, comunicadores, entre outros agentes que de alguma forma contribuíram e conhecem o esporte em Mato Grosso."

O professor-doutor Francisco Xavier Freire Rodrigues diz ainda que a pesquisa vai compor a literatura esportiva de Mato Grosso, que é carente de documentação e registros históricos, no que diz respeito ao futebol. "A pesquisa faz um resgate do auge do futebol em Mato Grosso. Já que não tem como falar de Verdão e não mencionar as melhores épocas do futebol no Estado". O doutor Francisco Xavier pondera que é importante que este trabalho chegue aos gestores públicos de Mato Grosso, pois com certeza pode contribuir para as políticas públicas para o desenvolvimento e investimentos no esporte.
Demolição do antigo estádio Verdão. Foto: Edson Rodrigues/ Secom-MT

Nota MixtoNet
A demolição do estádio Verdão custou R$ 80 milhões para os cofres públicos de Mato Grosso. No mesmo período, tivemos pelo país estádios sendo remodernizados a custos não muito superiores, como a Arena Independência, em Belo Horizonte, que custou R$ 149 milhões. A antiga SECOPA (Secretaria Extraordinaria da Copa do Mundo), responsável pelas obras da Copa 2014 em Cuiabá, chegou a cogitar a construção da Arena Pantanal em outro local, reformando o antigo estádio Verdão em um COT (Centro Oficial de Treinamento). Mas a escolha política, e talvez econômica, foi outra.